Selic em 14,25%: o corte que desafia a lógica
Na última semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14,25% ao ano, o terceiro corte consecutivo do ciclo de flexibilização. O movimento chama atenção porque acontece em um momento delicado: as expectativas de inflação do Boletim Focus subiram para 5,30% em 2026 e 4,10% em 2027, ambas acima do centro da meta, e o cenário externo segue tensionado pelo conflito entre Irã e Estados Unidos no Oriente Médio.
O Banco Central justificou a decisão citando a persistência de incertezas sobre um acordo de paz na região e os efeitos já sentidos sobre a atividade econômica e o mercado de trabalho. Na prática, o Copom optou por sustentar o crescimento mesmo com a inflação desancorada, uma aposta que só funciona se o cenário externo não piorar.
Por que isso afeta o Brasil?
O mecanismo é direto: conflitos geopolíticos no Oriente Médio elevam a aversão ao risco global, e isso faz investidores migrarem de moedas emergentes — como o real — para ativos considerados mais seguros, como o dólar e os Treasuries americanos. Some-se a isso a volatilidade do petróleo: o Brent chegou a US$ 97,81 o barril durante a escalada das tensões no Estreito de Ormuz e recuou para US$ 83,63 quando surgiram sinais de um possível acordo entre EUA e Irã.
Para o Brasil, essa montanha-russa tem dois lados: a Petrobras se beneficia de um petróleo mais caro, mas o país como um todo sofre com a fuga de capital típica de momentos de estresse internacional, que pressiona o câmbio e eleva o chamado risco país.
Selic, câmbio e bolsa
Os três principais termômetros do mercado mostraram essa tensão na prática:
- Selic: cortada para 14,25% a.a., ainda um dos juros reais mais altos do mundo, mesmo após o terceiro corte seguido.
- Dólar: fechou a última sessão da semana em queda de 0,35%, cotado a R$ 5,14, depois de ter ultrapassado R$ 5,17 em dias anteriores — reflexo direto do nervosismo com o adiamento das negociações de paz entre EUA e Irã.
- Ibovespa: oscilou entre 168 mil e 170,4 mil pontos na semana, pressionado pela aversão a risco global e pelas decisões de juros do Copom e do Federal Reserve, divulgadas na mesma janela de dias.
Esse tripé mostra um mercado dividido entre o alívio de juros mais baixos no Brasil e o desconforto com um cenário externo que ainda não se estabilizou.
O que monitorar
Para os próximos dias, vale acompanhar de perto: a ata do Copom, que deve detalhar o racional por trás do corte e dar pistas sobre o ritmo dos próximos movimentos; a retomada (ou não) das negociações entre Estados Unidos e Irã, que é hoje o principal vetor de volatilidade do petróleo e do dólar; e o próximo Boletim Focus, que indicará se o mercado está revisando para cima ou para baixo as projeções de inflação e juros. Câmbio e bolsa devem continuar reagindo a cada manchete vinda do Oriente Médio.
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Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de investimento. Analista responsável: CNPI Nº 261 — Solis Research Ltda.